Outras Palavras

O Sentido Manifesta-se em Liberdade  

mar aberto junto á falésia Imagem: Oficina de Escrita

    Compreender e pensar não são ações de explicar e reproduzir o que já foi realizado, mas, sim, de captar as tendências desse mundo com sentido, para o desenvolver, transformando-o”

P. Cerqueira Gonçalves

     As frases mais surpreendentes “dão a pensar”. Oferecem-se, por assim dizer, para serem escutadas de uma forma diferente daquela com que atendemos ao que nos parece óbvio.

     Elas parecem transportar em si uma “mensagem viva”, isto é, que esconde um significado capaz de uma progressão crescente, que não se esgota na explicação das suas partes, mas ganha espessura com a abordagem inventiva de interpretações sempre novas.

     Uma afirmação que nos interpela, pela abrupta desorientação que instala na rotina da mente, convida a uma investigação rigorosa mas fiel. Esta “fidelidade” significa que a exigência desta investigação se tenha já adequado à forma que torna única a mensagem que nos interpelou.

     Entramos assim no esforço de uma metamorfose voluntária do nosso modo de compreensão quotidiano. Adaptamo-nos à configuração da mensagem que está ao serviço de um sentido inédito.

     O que este sentido dá a pressentir transcende o nosso poder de o captar. Contudo, sabemos que o deixamos manifestar-se em liberdade, quando acedemos, gratuitamente, à largueza de um novo horizonte interior que ele próprio abriu em nós.

Junho – 19 – Escrever em Comunidade – OE

Palavra Viva

coração símbolo do amorImage by ElisaRiva from Pixabay 


      A Palavra é Viva e mais cortante que uma espada de dois gumes. É matriz de toda a poesia e reinspira, sempre de novo, a palavra criada. Renova-a na sua fonte, torna-a apta para o voo nupcial.

     Palavras-asa, palavras em voo vivo, em abandono, no traçado inaudito da sua demanda, inventando a escrita.

     A Palavra, mais real que os mundos, convoca-os na força do seu apelo: e eles surgem, do nada, orvalhados na surpresa de ser.

     As nossas palavras podem cantar um hino desconhecido a esta Origem; não podemos ouvi-lo, ainda, mas já nos arrebatam, no seu ímpeto incontido de celebrar, no limite dos dias, o regresso de um Rei.

     Palavras-sentinelas, nas ameias solitárias da vigília, sob milhões de estrelas, atentas aos sinais. Palavras-varinhas, sondando as vibrações do solo, acusando os lençóis de vida na profundidade.

     A Palavra, aurora em fogo que há-de julgar a História, prova as nossas palavras num cadinho incandescente e torna-as eficazes e aptas para lutar a seu lado.

     As nossas palavras-artesãs de uma outra Paz, que mal se espera, mas já nos inunda em silêncio e nos abriga em seu poder libertador.

Pentecostes 2019 – OE